sábado, 24 de outubro de 2009

Retrato da Solidão Moderna

Ligo a televisão. Oiço uma notícia particularmente triste, foi encontrado um cadáver de um cidadão português em Paris. Até ai nada de mais é só mais um estranho que morre incógnito no mundo. Estranha, foi a maneira como o encontraram, sentado numa poltrona com um livro ao colo, na sua própria casa. Mais estranho ainda, foi o facto de já ali estar imóvel e só à dois anos. Isto fez-me pensar, dois anos sentado com um livro, morto, e ninguém dá por nada. Houve um dia que o seu filho o procurou, tocou á campainha e não obtendo resposta virou costas e não quis mais saber. A companhia da luz e da água já lhe tinham cortado os serviços, mas nem pelo dinheiro se preocuparam em saber dele. Os vizinhos não estranharam nunca se saber nada do homem. A caixa do correio estava apinhada de cartas por ler desde 2007. Estava completamente sozinho. Dois anos em que ninguém quis saber dele. Dois anos mergulhado numa solidão de morte na eterna cidade do amor. Dois anos. O tempo que leva um bebé a transformar-se numa criança, o tempo que levam os romances mais profundos da adolescência, o tempo que leva escrever um livro, o tempo que leva ao mundo dar-se conta que alguém deixou de fazer tudo o que era habitual fazer, a dar-se conta que alguém morreu.

Nesta sociedade urbana estamos mais próximos uns dos outros, e no entanto mais afastados que nunca. Corremos contra centenas de pessoas todos os dias, todas apressadas para os stresses diários. Estamos cada vez mais independentes uns dos outros, numa sociedade onde estamos cada vez mais interligados, e cada vez mais afastados. Vamos no meio de uma multidão e mesmo assim estamos sozinhos. Almoçamos rapidamente em restaurantes atulhados e mesmo assim não deixamos de estar sozinhos. Viajamos em metros que mais parecem latas de sardinhas e não temos a quem chamar amigo. Parece que só somos unidos quando dá o futebol… Só nos damos conta que os outros também têm sentimentos quando ouvimos destas histórias… Custa-me a crer que não nos importemos minimamente com os outros…

Mas talvez tenha sido melhor. Às tantas era um homem detestável, antipático e trombudo, e por isso ninguém ligou. Às tantas foi o melhor para ele, viver na solidão não é Viver. Quem sabe se um anjo o ouviu chorar nas noites de lua cheia, sozinho, baixinho, e decidiu levá-lo para um lugar melhor? Quem sabe se não foi por compaixão que a centelha de vida abandonou o seu corpo? Quem poderá dizer que não foi o livro que o matou, dando-lhe emoções de papel tão mais fortes que as da realidade que o seu cansado coração não aguentou? Quem poderá afirmar que não havia uma dama na sua vida esperando impacientes horas a sua chegada, imaginando o pior? Quem poderá dizer que ele não suspirava por um cavalheiro? Nunca se sabe, ele pode ter decidido afogar as mágoas num bom Porto Ferreira e acabar por dar cabo do coração.

Poderás afirmar que ele era feliz? Poderei especular que ele era triste?

Uma coisa é certa: passou os seus últimos momentos só, morreu, e continuou sozinho, preso num retrato congelado da solidão do homem moderno.


Crónica por:

Gabriela Marramaque e Gonçalo Matos

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